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terça-feira, 10 de maio de 2011

O Pássaro em Nós

Faz dois anos, um pássaro decidiu entrar numa gaiola.
Não porque quisesse na verdade entrar.
Queria dar amor, ensinar a cantar, ensinar a voar.
Ensinar a viver e quem sabe estilhaçar a gaiola.
Na verdade, ele sabia que existia uma gaiola, mas não a quis reconhecer.
Na verdade, foi preciso ser escorraçado da gaiola para que saísse dela.

Na verdade, aprendeu muito mais do que o esperado.
Que não devia ter entrado.
Que quem é ele para pensar em libertar outrem que não ele.
Que o seu coração acha muito violento mas existem pássaros que estão presos faz
tantos anos que nunca se libertarão.

Que o seu papel de pássaro é voar e chilrear; tão belo que fira o olho e assuste.

Voar alto, com força. Voar para locais não voados antes, de forma não voada antes. Cantar novos usos ao que já tem.

A liberdade em mim, é para mim. Pode ser que seja tão bela que quando olhar no espelho vos veja a vós.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Poeira

Irmão, as vezes olho à volta e penso que sou único. Que sou o melhor, que vejo coisas que mais ninguém vê ou sente, que qual salmão a saltar pela vida no imenso rio, vocês todos nadam enquanto que vos vejo de cima. O rio porém é fortuito e nas águas cristalinas aprendi que ás vezes é exactamente o contrário, qual espelho. Vocês todos vêm, vocês todos sentem ou pelo menos têm a capacidade de; mas escolheram não o fazer. Alguém vos disse que não eram capazes, que eram menores e...vocês acreditaram.

Não me vou carpir e desesperar por um porquê que somente a cada de um de vós toca e apenas cada um consegue na verdade, responder.

Não sou colector estatístico de estados de alma ou sentimentos obscuros que tenho dificuldade em classificar, não existe em mim a energia para ser Deus de ti, mas apenas de mim e acredita quando te digo que já habita em mim um anão, que carrega um gigante muito grande.

Sei todavia com todo o tutano que habita estes ossos, com toda a força evolucionaria que a inteligência me faz ter, que perecerás. Que vais morrer, sem apelo nem agravo. Eu sei, todos vamos um dia. E...que fizeste tu, que de uma massa biológica disforme vieste, para te achares feito Deus da poeira das estrelas? O que fizeste para de repente pensares que efectivamente podias simplesmente existir, sem prestar homenagem mínima a esse caos que te pariu e te fez único? Fantástico? Absolutamente mágico?

O tempo escorre-te violentamente pelas mãos qual areia muito fina e todavia tu sopras na tua mão, como se estivesse suja...do espelho da iniquidade com que te tratas já nasceram todos os demónios que te hão-de destruir, foste tu que os alimentaste e lhes deste carinho...

Tu nasceste com toda a promessa de voltares a ser poeira, magnifica, cintilante!

De que precisas para simplesmente o ser?

domingo, 12 de dezembro de 2010

A vossa prenda de Natal

Olá. Tenho estado calado, porque agora tento falar menos. Tento sinceramente estar ao teu lado e ouvir-te, alma irmã minha. Sei que talvez não estejas habituada, afinal todos berram a sua história vencedora, é normal que olhes com estranheza quando alguém não te tenta furar os tímpanos. Sei que por vezes sou muito estranho. Poderás conhecer-me faz muitos anos e continuar a achar isso. Poderás conhecer-me faz pouco tempo e achar que me conheces a tua vida toda. Eu tanto sinto um como outro.

Este ano, que do meu silêncio me apontaste esses factos identificadores da minha história perante vós, vou-te contar o porquê e no fim vais-me permitir a partilha do motiv.

Toda a história tem um começo e este é um deles. Sei que nasci dividido e esse signo, tanto estelar quando mundano, sempre marcou o meu saborear deste mundo. Nasci no meio da luta de classes, dos pobres a tentarem roubar aos ricos. Devo ter ouvido muita música revolucionária enquanto esteva na barriga da minha mãe, porque apesar de ter nascido após o 25 de Abril, choro de emoção profunda sempre que ouço a Grândola. A minha mãe não pôde ficar comigo até aos 3 anos por causa de um acidente e até essa altura, fui criado pela minha avó em Lisboa. Lembro-me do cheiro a relva da Gulbenkian, do Sol que me acarinhava e dos pássaros. Aos 3 anos, fui para a minha mãe e saí de Lisboa para ir para uma aldeia do interior profundo, onde nem sequer chegava estrada de alcatrão. O meu pai era louco, a minha mãe divorciada e eu nem sequer era baptizado. Sei hoje que se formava pacientemente um caldo grosso de tubérculos diferentes, de onde havia de sair eu. Foram os tempos do gulag e apesar do nome que lhe davam, vivia-se muito bem por lá. Quando era pequeno lia imenso, tudo o que apanhava, como folhas de outono a passarem por dentro de mim. A minha personalidade sempre foi de extremos, exacerbada pelas mudanças, educações diferentes, natureza circundante e falta de alguém cujo modelo substituto apenas conheci nos primeiros 10 anos da minha vida (e que modelo era!!!). Os meus outros modelos eram por isso heróis, personalidades famosas e reis. Talvez por isso me tenha sentido um principezinho durante alguns anos. Depois o caldo que eu era foi atirado ao chão sujo, ainda bem porque é sempre preciso uma boa dose de porcaria para criar um homem. E eu lá me fui criando...

Sou...reunião de muitos pensamentos, alguns aéreos outros castanhos da terra, alguns outros cheios de azul do mar. Prefiro afirmar-te que tento ser bom, porque sei o que mais conta. Por vezes sou eu, outras o teu espelho. Ás vezes vais-me partir e até odiar; posso ser aquela tua consciência que não querias mesmo ouvir. Outras, olharás para mim e perceberás que acabei de dizer um chorrilho de disparates incomensuráveis; mas que tu na verdade me dás importância por aqueles outros momentos em que sabes que o meu ser acabou de transformar o teu, para sempre.

Este Natal, não falo do que aprendi contigo. Ofereço-te o meu silêncio contemplativo, dou-te o seu reflexo e convido-te com um sorriso a fazeres o mesmo.

Dou-te um primeiro capitulo do meu livro de vida e convido-te a escrever um comigo.

Sou todo teu, amigo meu.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

De repente...

De repente, olho para ti e estou diferente. Não sei o que foi, não sei o que é, não sei se é mau ou bom. Estou diferente. Terei aquidescido ao que todos já sabem mas não admitem? Terei pensado que podia fazer como outros e simplesmente não pensar? Fazer sem pensar nas consequências? Respiro fundo...de uma forma estranha, continuo a ser eu, sei-o profundamente, todavia... olho-te de olhos mais firmes, amo mais a imagem que vejo mas foi sem pensar, foi sem plano e fazer...a sedução dá-nos um poder inusitado, no qual depressa embarcamos, penso. Não é só isso, reponto. Existem agora coisas que já não quero à minha volta e isso inquieta-me, porque antes estavam tão próximas! Sinto como se tivessem sido riscadas por uma simples equação matemática...do género, se queres continuar aqui tens de lutar pelo teu espaço porque este cometa está a partir...estranho. Faz por ti que eu agora estou ocupado a fazer por mim. Este tipo de pensamento nunca fez parte de mim. Teria sido isso o que me tem impedido? Será que fiquei egoísta? Não...risos...só gosto mais de mim. Gosto cada vez mais de partilhar. Agora, é verdade que me libertei e sou cada vez mais livre, não vivo a vida imposta pelos outros mas sim a que eu quero. Onde isso me levará, não sei mas acho que me vou divertir!